23.2.08

Como começar - Harold Pinter

"Perguntam-me muitas vezes como nascem as minhas peças. Não sei dizer. Nem sou capaz de resumir nenhuma das minhas peças, só sei dizer: foi isto o que aconteceu. Foi isto que disseram. Foi isto o que fizeram.
A maioria das peças nasce de uma frase, uma palavra ou uma imagem. À palavra junta-se quase de seguida uma imagem. Vou dar dois exemplos de duas frases que me vieram à cabeça de forma inesperada e a que logo se seguiu uma imagem, que eu depois segui. As peças são O Regresso A Casa e Há Tanto Tempo. A primeira frase de O Regresso A Casa é: “O que é que fizeste à tesoura?”. A primeira frase de Há Tanto Tempo é “Escuro”.
Em qualquer dos casos, eu não tinha mais informações.
No primeiro, era evidente que alguém estava à procura de uma tesoura e perguntava pelo seu paradeiro a outra pessoa, de quem suspeitava tê-la roubado. Mas eu sabia, de alguma maneira, que a pessoa a quem a pergunta era feita se estava nas tintas para a tesoura e até mesmo para quem lhe fazia a pergunta.
«Escuro» achei que era a descrição do cabelo de alguém, o cabelo de uma mulher, e era a resposta a alguma pergunta. Em qualquer dos casos, senti-me obrigado a prosseguir. Isto passou-se visualmente, numa gradação muito lenta, da sombra para a luz.
Quando começo uma peça, chamo sempre A, B ou C às minhas personagens.
Na peça que viria a ser O Regresso A Casa, vi um homem entrar numa sala despojada e fazer uma pergunta a outro homem mais novo que estaria sentado num feio sofá a ler um jornal de apostas de cavalos. Tinha a ideia que A seria um pai e B seu filho, mas não tinha qualquer prova. Isso, no entanto, seria confirmado daí a nada quando B (que viria a ser Lenny) diz a A (que viria a ser Max), «Pai, importas-te que eu mude de assunto? Queria fazer-te uma pergunta. O que comemos ao jantar, como é que se chamava? Que nome é que dás àquilo? Porque é que não compras um cão? És um cozinheiro de cães. A sério. Achas que estás a cozinhar para a matilha de cães.» Ou seja, a partir do momento em que B chama «Pai» a A, pareceu-me aceitável que fossem pai e filho. Claramente, A é também o cozinheiro e a sua arte não parecia ser muito apreciada. Quereria isto dizer que não havia mãe? Não sabia. Mas, como disse para comigo na altura, os nossos princípios não sabem como serão os nossos desenlaces."

Harold Pinter
(Discurso de aceitação do Prémio Nobel, Várias Vozes, 2006, edições Quasi)

A moral da história III - Anthony Nielson

"A escrita teatral é uma daquelas coisas que é tanto subvalorizada como sobrevalorizada. Parece-me que não é preciso explicar isto. Mas nas raras ocasiões em que dou aulas, fico sempre surpreendido porque o dramaturgo é entendido como uma espécie de político sem partido. Neste momento, há alguns escritores muito bons aos quais se pode aplicar esta acusação, mas, para quem está a começar, isso é um fardo muito pesado. Quando eu perguntava aos estudantes, por exemplo, que ideias é que eles tinham, eles respondiam quase sempre com temas. Eles queriam escrever peças sobre o racismo, sobre os sem-abrigo, sobre a erosão da democracia. Eles queriam "dizer alguma coisa" e isto era visto como sendo um requisito fundamental para uma peça de teatro: ela devia "dizer alguma coisa". Claro que estes estudantes estavam frequentemente bloqueados e não eram produtivos. Tinham o seu tema, mas não faziam ideia de como proceder, porque não tinham vontade de aceitar que o dramaturgo é, nem mais nem menos, um contador de histórias - um descendente directo daquela pessoa que se sentava no largo da aldeia a contar histórias às crianças. Quando eram confrontados com isto, muitos dos estudantes eram extraordinariamente resistentes, ficavam desiludidos até, como se a narrativa fosse - em si própria - de alguma maneira, pouco aliciante e estivesse fora de moda. "Contem a história", insistia eu, «e os temas seguirão o seu caminho»."

Anthony Neilson
Prefácio a PLAYS ONE

22.2.08

Entrevista: Callie Khouri

Entrevista com a guionista Callie Khouri, vencedora de um Oscar pela escrita de Telma e Louise: http://www.youtube.com/watch?v=-lhqg0i27G0&feature=related

Entrevista: Scott Rosenberg

Entrevista com o conceituado guionista Scott Rosenberg onde ele fala de Estrutura: http://www.youtube.com/watch?v=3CoGjohyUPs&feature=related

Entrevista: Billy Ray

Entrevista com o conceituado guionista Billy Ray onde ele fala da importância do SUBTEXTO e do DILEMA nas histórias: http://www.youtube.com/watch?v=YkHk4V3w7ow&NR=1

Entrevista: Paul Haggis

Entrevista com Paul Haggis, guionista vencedor de dois Oscars, um pela escrita de Million Dollar Baby e outro por Crash: http://www.youtube.com/watch?v=soZ5ODeyQmE


Biografia de Paul Haggis: http://www.imdb.com/name/nm0353673/bio

Entrevista: Joe Eszterhas

Entrevista com Joe Eszterhas, guionista que escreveu Instinto Fatal, Show Girls, e outros filmes: http://www.youtube.com/watch?v=4o4V2pVNsqA&feature=related

21.2.08

Estilo Literário - Nabokov

"O vocabulário de Tchékhov é pobre, as combinações de palavras são quase banais; são-lhe alheios um verbo sumarento, um adjectivo de estufa, um epíteto de menta e natas servidos numa bandeja de prata. Não foi um virtuose da linguagem como Gógol; a Musa dele vestia sempre a roupa de todos os dias. Por isso é apropriado referir Tchékhov como exemplo de que é possível ser-se artista perfeito mesmo sem o brilho insólito da técnica verbal, sem o cuidado excepcional nas elegantes flexões da frase."

Vladimir Nabokov
prefácio a CONTOS DE TCHÉKHOV, Volume I, Relógio D'Água, 2001

O Humor - Nabokov

"Tchékhov escrevia livros tristes para pessoas alegres; quero dizer com isto que só um leitor com sentido de humor será capaz de sentir a fundo a tristeza deles. Há escritores que emitem um som intermédio entre o riso abafado e o bocejo - muitos deles, a propósito, são humoristas profissionais. A outros, por exemplo a Dickens, sai uma coisa intermédia da risada e do soluço. Existe também uma variedade horrível de humor utilizada de propósito pelo autor para dar um escape puramente técnico depois de uma tempestuosa cena trágica, mas o truque nada tem a ver com a verdadeira literatura. O humor de Tchékhov é alheio a isso tudo; é um humor puramente tcheckhoviano. O mundo, para ele, é cómico e triste ao mesmo tempo, e sem repararmos na sua comicidade não compreenderemos a sua tristeza, porque são inseparáveis."

Vladimir Nabokov
prefácio a CONTOS DE TCHÉKHOV, Volume I, Relógio D'Água, 2001

Escrever um poema pelo poema - Allan Poe

"Tem-se suposto , tácita e manifestamente, directa e indirectamente, que o objectivo último de toda a Poesia é a Verdade. Todo o poema, diz-se, deveria inculcar uma moral, e por esta moral é que deve ser julgado o mérito poético do trabalho. Nós, os americanos, temos principalmente patrocinado esta feliz ideia, e nós, bostonianos, mui especialmente, a temos desenvolvido em cheio. Metemos nas nossas cabeças que escrever simplesmente um poema pelo poema e confessar que tal foi o nosso desígnio seria confessar-nos radicalmente carentes da verdadeira dignidade e força poéticas: mas o simples facto é que, se nos permitíssemos olhar para dentro das nossas próprias almas, descobriríamos imediatamente ali que, sob o sol, nem existe nem pode existir qualquer trabalho mais inteiramente dignificado, mais supremamente nobre, do que este mesmo poema, este poema per se, que é um poema e nada mais, este poema escrito somente por ele mesmo."

Edgar Allan Poe
Poemas E Ensaios, Editora Globo, 1987

"Um texto dos dias de hoje" - Jorge Silva Melo

"Fazer um texto - um texto, um texto, um texto! - dos dias de hoje. Tão de hoje que até haverá partes em que as personagens verão a TV do dia e lerão os jornais da véspera ou desse mesmo dia. Um dia, em que toda a Lisboa andará cantando um qualquer hit que, se fosse em 1993, teria sido o "Esta vida de Marinheiro" e em 1994... o senhor Abrunhosa, que é o que há... Um texto de hoje com as palavras de hoje. [...] ...por que é que em vez de "Temos que trabalhar" tem sempre no teatro que se dizer coisas como "Um pouco mais de luz e eu era brasa!" com voz trémula? Por que é que a poesia do teatro é tão bafienta e deixamos ao rock as palavras dos nossos dias? [...] ...queremos falar de pessoas que sobrevivem e se esganam por sobreviver hoje mesmo. Pessoas como tu e eu que também temos o direito de entrar em cena..."

Jorge Silva Melo
prefácio de António, um rapaz de Lisboa, Edições Cotovia, 2005

A moral da história II - Harold Pinter

"... não posso deixar de sentir que temos uma tendência marcada para acentuar, com tanto à vontade, as nossas preferências ocas. A preferência pela «Vida» com V maiúsculo, que é supostamente muito diferente da vida com v minúsculo, quero dizer, a vida que de facto vivemos. A preferência pela boa vontade, pela caridade, pela benevolência, tão fáceis que se tornaram estas libertações.

Se tivesse que afirmar um preceito moral, seria qualquer coisa como: cuidado com o escritor que expõe a sua causa para que a abracem, que não vos deixa dúvidas sobre o seu valor, a sua utilidade, o seu altruísmo, que declara que o seu coração está no sítio certo e se assegura de que pode ser clara e totalmente visto, uma massa pulsante no sítio onde deviam estar as suas personagens. O que é apresentado, a maior parte das vezes, enquanto corpo de pensamento activo e positivo é de facto um corpo perdido numa prisão de definição vazia e lugar-comum."

Harold Pinter
Várias Vozes, edições Quasi, 2006

A moral da história I - Harold Pinter

"Os dramaturgos, sem dúvida, permitem-se hoje em dia profecias que cheguem, nas suas peças e fora delas. Avisos, sermões, admoestações, exortações ideológicas, juízos morais, problemas definidos com soluções incorporadas; tudo pode aquartelar-se sob a bandeira da profecia. A atitude por trás de coisas deste género pode ser resumida numa frase: «Estou-te a dizer!»"

Harold Pinter
Várias Vozes, edições Quasi, 2006

A moral da história - Harold Pinter

"Uma peça não é um ensaio, nem deve um dramaturgo sob qualquer exortação prejudicar a consistência das suas personagens injectando um remédio ou uma justificação pelas suas acções no último acto, simplesmente porque fomos ensinados a esperar, faça chuva ou faça sol, pela "resolução" do último acto. Fornecer uma etiqueta moral explícita a uma imagem dramática em inevitável evolução parece-me ser fácil, impertinente e desonesto."

Harold Pinter
Várias Vozes, edições Quasi, 2006

O bloqueio de escritor - Christopher Vogler

"Q – Have you ever suffered writer’s block? If so, how did/do you get past it?

A – Aggh! Terrible writer’s block. One of the great things to deal with that is Julia Cameron’s idea of “morning pages” from THE ARTIST’S WAY, bless her heart. That got me writing something every day and made it habitual and much, much easier. I also learned from Natalie Goldberg who teaches that it is truly and simply making words flow through your fingers into the pencil or into the keyboard. The other key is having somebody else setting deadlines for me since I can’t do that for myself. A deadline is a great blessing."

Christopher Vogler
entrevistado no site http://occsliceoforange.blogspot.com/2006/08/chris-vogler-legendary-writing-coach.html

Wikipedia:http://en.wikipedia.org/wiki/Christopher_Vogler

Estrutura Narrativa e Personagem - Robert Mckee

"The function of STRUCTURE is to provide progressively building pressures that force characters into more and more difficult dilemmas where they must make more and more difficult risk-taking choices and actions, gradually revealing their true natures, even down to the unconscious self.
The function of CHARACTER is to bring to the story the qualities of characterization necessary to convincingly act out choices. Put simply, a character must be credible: young enough or old enough, strong or weak, worldly or naive, educated or ignorant, generous or selfish, witty or dull, in the right proportions. Each must bring to the story the combination of qualities that allows an audience to believe that the character could and would do what he does."

Robert Mckee
em entrevista ao site http://www.writersstore.com/article.php?articles_id=245&discount=ezine&source=ezine

O personagem é as suas escolhas - Robert Mckee

"True CHARACTER is revealed in the choices a human being makes under pressure - the greater the pressure, the deeper the revelation, the truer the choice to the character's essential nature.

Beneath the surface of characterization, regardless of appearances, who is this person? At the heart of his humanity, what will we find? Is he loving or cruel? Generous or selfish? Strong or weak? Truthful or a liar? Courageous or cowardly? The only way to know the truth is to witness him make choices under pressure to take one action or another in the pursuit of his desire. As he chooses, he is. "

Robert Mckee
em entrevista no site http://www.writersstore.com/article.php?articles_id=244

O incidente revela a personagem - Henry James

"What is character but the determination of incident? And what is incident but the illumination of character?"

The Art of Fiction
Henry James